Um instante

Há um instante, muito breve, quase invisível em que tudo parece possível e, ao mesmo tempo, perigoso. Não é o momento da fuga nem o da entrega plena. É um intervalo delicado, onde o coração abranda e a mente começa a fazer perguntas que não pedimos. É isto? É agora? Não como exigência, mas como um sussurro que chega cedo demais.

Não se trata de rejeição nem de desinteresse. É algo mais subtil: um recuo interno, uma suspensão do gesto, como se o corpo dissesse “espera” antes mesmo de sabermos porquê. Nesse espaço, nasce a dúvida, não porque falte desejo, mas porque há memória. Memória de quedas anteriores, de promessas que não se cumpriram, de partes nossas que ficaram expostas tempo demais.

Erguer defesas não é sinal de frieza. É uma forma de cuidado aprendida na dor. São muros que não foram construídos para afastar o amor, mas para proteger aquilo que ainda dói quando tocado. E, às vezes, esses muros aparecem mesmo quando gostaríamos de não os reconhecer, mesmo quando desejamos atravessá-los.

Perguntamo-nos se há algo de errado connosco, se estamos “estragadas”, se falhamos sempre no mesmo ponto. Mas talvez o erro esteja na pergunta. Talvez não seja falha, mas sensibilidade excessivamente treinada para antecipar o impacto. Talvez não seja incapacidade de amar, mas um coração que aprendeu a vigiar-se.

Ficar suspensa dói. Não avançar nem recuar cansa. É um lugar sem chão, onde o sentir perde nome e o querer não sabe para onde ir. Ainda assim, há verdade nesse espaço. Ele revela o conflito entre o desejo de ficar e o medo de se perder, entre a vontade de confiar e o instinto de sobreviver.

Talvez amar, às vezes, comece exatamente aí: não na certeza, mas na honestidade desse abalo. Na coragem de não se chamar defeito ao que é apenas um pedido de tempo.

Porque não é a dúvida que nos estraga é o silêncio em torno dela.

C.M

Anterior
Anterior

Entre pontos e rótulos.

Próximo
Próximo

Há quem ECOE em nós