Não há heróis
Que bonito é fazer parecer que tudo é fácil. Que a vida são só sortes e
estrelinhas a iluminar o caminho.
Levar a passear os filhos próprios, os que estão para vir e ainda se for
preciso os dos outros.. que mais parecem muitos e o que interessa é
despertar interesse a quem se cruza na rua.
“Tão loirinhos, tão giros”;
“Como é fazes?”;
Sozinho no parque com tantas crianças. O pai que faz as mães sonhar com
o par que nunca lhes chegou.
Leva a capa do super herói vestida. Com sorte ainda pedem autógrafos, ou
que lhe façam um filho também.
Não se pode tirar o mérito — fazer parecer fácil não é para todos. Há mestria nisso.
É preciso gostar de ser pai, isso não dá para negar. Gostar dos abraços ávidos dos
filhos, de ser o consolo das lágrimas que tanto o desejam. De sentir que se sofre
na sua ausência..
Brincar é bom.
Mas amar é ainda melhor.
E quem sobra para cuidar?
Sem banho, sem roda dos alimentos, sem cintos, sem regras. Assim a vida
é melhor.
Tudo se pode. Nada se faz.
Negociar é melhor do que educar. Dizer que sim cansa menos que dizer que
não. Mas ainda não sei se estar sempre a rir é mesmo melhor do que
também poder chorar.
Ter prazer é melhor que não ter. Não dá para discordar.
Não é preciso preparar crianças para o mundo. É preciso preparar o mundo
para as nossas crianças e eu estou aqui para fazer esse caminho. Mas
somos nós e eles e todos juntos. Não vivemos à parte.
Dorme quem quiser. Quem tiver fome há-de comer e é de relembrar que o
cabelo sujo apanha menos piolhos. Always the Bright Side.
Faz sempre sol daquele lado da cerca e isso dá muita sombra na vida da
cidadã comum que os pariu.
Afinal é possível ter o sol na eira e chuva no nabal.Basta aparecer só nas horas certas, fazer só o que se quer fazer. O resto
alguém fará.
Ou não.
Será que importa mesmo?
É mesmo preciso comer brócolos?
É mesmo preciso saber que quem nos contraria também nos ama?
É mesmo preciso saber que quem nos fecha os olhos para dormir nos quer
um bem terrível, tão terrível que mesmo depois de uma hora não desiste de
nos embalar?
É mesmo preciso ensinar a confiar nas decisões de quem cuida de nós,
ainda que não sejam a nossa preferência?
Como vamos acreditar que vão lutar pelo nosso bem se não fizerem sempre o que
é melhor para nós?
Isto das prioridades dá muito trabalho.
Mas isso não é para heróis.
As capas são para pessoas especiais, que salvam, que rompem casa
adentro para trazer boas novas, que fazem concursos de karaoke mesmo
depois do “lavar os dentes, xixi….e cama”.
Descascar cenouras?
Acordar às 4 da manhã para o remédio da tosse?
Isso também não é para heróis.
Eu desafio os meus filhos todos os dias.
Peço-lhes que questionem tudo o que não entendem e que questionem o futuro
também — talvez assim o possam mudar.
Gargalhamos entre muitas cócegas, saltamos muros e fazemos lutas de
almofadas. Mas também os desiludo, porque lhes penteio o cabelo mesmo
quando queriam por o comboio a apitar. Dou-lhes sopa até ao fim antes da
maça cortada em quartos, porque o mimo também vale. Há dias em que o
gelado vem ao almoço e ao lanche e depois do jantar, mas é só as vezes,
para não dar dores de barriga.
Acordo. Lavo. Escovo. Pinto. Preparo. Arrumo. Limpo. Visto.
Dispo. Volto a vestir. Dispo outra vez.
Desisto por cinco segundos.
Arrumo outra vez.Conduzo. Apanho. Tiro. Ponho. Agasalho. Recolho.
Ainda não respirei.
Telefone. Confirmo. Ufa — e o dia ainda nem começou.
Trabalho. Penso. Desconcentro-me. Compro. Faço. Cuido.
Encontro o ursinho que estava perdido.
Embalo. Arrumo. Arrumo.
Choro — só às vezes, senão dá dores de barriga também.
E faço tudo outra vez.
E outra.
E mais
E ainda não parei de ser feliz nem de sorrir cada vez que penso que está
quase na hora de os ir buscar. Que está quase na hora de os poder abraçar.
Acho que não há heróis, mas as mães… têm de certeza super poderes.
Uma mãe.