Fôlego.
A incerteza instala-se como casa provisória. Não bate à porta: entra. É o chão que range sob os pés quando nada garante que ele não vá ceder. E, ainda assim, é nela que se aprende a andar: tropeçando, claro, mas com convicção. Aquele tipo de tropeço que o corpo comete e a dignidade tenta imediatamente reescrever. O pé e a cabeça falham mas ainda assim seguimos em frente como se tivesse sido um passo coreografado, parte do plano, absolutamente intencional.
O medo de não pertencer nasce desse lugar instável, não por falta de espaço, mas por excesso de perguntas.
Pertencer deixa de ser um lugar externo e passa a ser uma negociação íntima conduzida por alguém claramente sem formação em diplomacia.
O risco de estar sempre a descobrir, ou a querer ser melhor, cansa. Porque a descoberta não tem linha de chegada, e a ideia de “melhor” muda de forma à medida que nos aproximamos. Há uma violência suave nisso: a de nunca repousar totalmente em quem se é. Mas há também movimento. Quem não se arrisca a descobrir fica inteiro, porém imóvel. Quem se arrisca, fragmenta-se e aprende a recompor-se.
O sentimento de nascer ao contrário é esse: vir ao mundo já em desajuste, como se o manual tivesse sido escrito para outra pessoa. Renascer da forma errada, fora de tempo, fora de molde. Errada aos olhos de quem espera coerência, destino claro. Possível, no entanto, porque a vida não exige perfeição para continuar, apenas fôlego.
Não pertencemos antes de nos tornarmos. Não nascemos prontos, nascemos em processo. A incerteza não é falha de caráter, é condição de existência.
Renascer do modo errado é afinal, a única forma de nascer. Ou não, mas é o que há no menu.
C.M